“Comenta-se como ponto pacífico a demolição pura e simples do casarão antigo em que esteve o Mercado durante 45 anos e que cedeu seu lugar ao Mercado Modelo recém-inaugurado e já em franco funcionamento de todas as suas peças. Na verdade, a substituição do Mercado, que já não atendia às contingências do momento, por esse outro construído em tempo recorde e em moderníssimas adaptações, foi realmente espetacular e indiscutivelmente proveitosa. Ninguém de sã consciência e espírito elevado poderá deixar de aceitar monumental e grandiosa obra” (e elogia o seu construtor – Prefeito Ten. Jaime da Paz). (…) “Falam que caberá ao demolidor do velho Mercado, de saudosas tradições, fruto de trabalho realizado com minguados recursos de trinta mil réis por ano, num período de oito anos, todo o material retirado do velho prédio, como pagamento de seu difícil e cansativo serviço, ficando a Prefeitura isenta de qualquer ônus.”

Ele diz que, atendendo a pedido para apresentar sua opinião, que lhe fez o citado prefeito, a respeito do destino reservado ao velho Mercado, manifestou-se pela demolição e no local fosse construída uma praça, um prolongamento da já existente, em meio da qual se destacava a Coluna da Hora, e surgiria daí um logradouro público mais amplo e mais arejado, dando uma visão nova e muito bonita aos olhos do povo e à cidade que crescia. Mas depois mudou seu pensamento, como prosseguiu no artigo: “E vem a interrogação. Por que não se evita essa demolição desnecessária e improcedente, embora sabendo-se que a Prefeitura não fará nenhuma despesa na limpeza do terreno, transformando o que era antes um Mercado num prédio para receber, englobando-os ali, todas as repartições federais e estaduais aqui sediadas e dispostas em diferentes pontos da cidade?
Ademais, afora isso, estaria resguardado aquilo que em passado remotíssimo se constituiu em grande esforço e dedicação às coisas da gleba-berço de dois administradores que marcaram época com a construção do Mercado que a terra reclamava – Major Luiz (Lula) Miranda, Intendente Municipal, e Cel. Ovídio Bona, Vice-Intendente -, como acontece hoje com esse trabalho gigantesco do realizador-mor em todos os tempos na história deste glorioso Município. Naquela época era o Mercado de que carecia a gente resumida e acanhada do lugar, mas que nem por isso deixava de ter o seu valor e que com poucas transformações e cuidados higiênicos, serviu até o dia 14 de outubro deste 1972.
Portanto, teve ele, mesmo nos moldes em que foi construído, uma serventia pública de 45 anos, quase alcançando o cinqüentenário de pleno atendimento aos hábitos cotidianos da gente do passado e do presente. Aí estão a tradição, a consideração e o respeito ao feito quase heróico, porquanto ultrapassara os limites do impossível, que precisam ser preservados, porque justos, desses dois filhos da terra, um já falecido, o outro ainda vivo, beirando os noventa, que, por certo, não se sentirá com forças suficientes para presenciar o desaparecimento da obra que ele ajudou a edificar, numa incansável e dura luta, que durou anos para consegui-la. E só porque outro Mercado veio para substituí-lo, querem-no agora jogar fora como sucata? Que seja reformado, ao invés disso, e verão como o Mercado que se quer demolir, embora com nova roupagem, continuará a prestar à gleba heróica os seus inestimáveis serviços que vinha prestando, só que com outras características que não as primitivas.” (…).
Aí o tom de repúdio e desabafo. Mas o certo é que o panorama da praça mudou. Notem que até a torre do relógio (aqui citada) igualmente veio abaixo? E uma parte de nossa história foi para o esquecimento dos mais velhos e do desconhecimento dos mais novos.
Fonte: José Miranda Filho
Foto: Bacafuá do Helmo Andrade
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